Um dia em estágio com a Seleção de Pista
O sucesso da Seleção Nacional de Pista, com 38 medalhas desde 2013, é o lado visível de um intenso, metódico e aprofundado trabalho. Fomos acompanhar um dia de estágio da equipa nacional para desvendar a ponta do icebergue desta construção desportiva sediada em Sangalhos, no Centro de Alto Rendimento de Anadia.
O profissionalismo é evidente para quem visita o grupo de trabalho. O mecânico, Carlos Rocha, dá as últimas afinações nas bicicletas. O massagista, António Castro, já preparou os alimentos e suplementos alimentares dos corredores. O selecionador nacional, Gabriel Mendes, tem os computadores ligados, os reagentes a postos e toda a jornada, que será longa, programada. Cada ciclista sabe o que lhe compete fazer e em que horário. Neste estágio encontrámos César Martingil, Iuri Leitão, João Matias, Miguel Salgueiro, Rodrigo Caixas e Maria Martins.
Foi com a conhecida “Tata” que nos cruzámos primeiro. Quase não a reconhecíamos. A face tapada por uma máscara - não das que nos protegem do contágio por SARS-CoV-2 -, ligada a um aparelho colocado às costas, como se fosse uma mochila. É um analisador de gases (K5-Cosmed), que, através de um sistema de telemetria, transmite em tempo real indicadores fisiológicos da ciclista para o computador de Gabriel Mendes.

É dia de avaliação da capacidade aeróbica, testes de lactato e treinos técnicos. Maria Martins é a primeira a submeter-se à bateria de exames. Entra em pista com a máscara sensorizada na face e o aparelho às costas. É assim que pedala por patamares. Cinco minutos em cada nível de potência. Após cada um destes períodos é submetida uma picada no dedo para medição de lactato.
Num dia de agenda carregada, Maria Martins vai diretamente da pista para o quarto em que está alojada no velódromo. É a partir dali que entra em direto, por videochamada, com o programa Praça da Alegria. A ribatejana acaba de ser anunciada como uma das cinco finalistas na escolha da melhor atleta portuguesa de 2020. A presença no programa serve para reagir à notícia. Num ambiente de alto rendimento profissional, a comunicação faz parte das tarefas. Dos corredores e das equipas.
Enquanto Maria Martins fala aos portugueses, Iuri Leitão já roda na pista. O procedimento é o mesmo aplicado à corredora, mas os patamares de potência em que o trabalho é realizado são diferentes. Esses degraus variam de corredor para corredor. Ainda mais entre homens e mulheres.

O analisador de gases portátil permite avaliar no terreno a potência máxima aeróbica, o chamado VO2 máximo. Com este equipamento, os corredores não precisam de estar em laboratório numa bicicleta fixa. Trabalhando na pista, introduzem-se novas variáveis no processo de teste, aproximando-o mais das condições reais encontradas em competição.
Além da capacidade de utilização de oxigénio, os testes a que são submetidos os ciclistas neste dia de estágio permitem perceber em que níveis de intensidade do exercício o organismo usa os lípidos (gorduras) ou os hidratos de carbono como fonte de energia.
A recolha laboratorial dá matrizes de dados. Um dos segredos está na interpretação dos números, transformando-os em instrumento de sucesso desportivo. “Vamos à procura de parâmetros indicativos e explicativos do rendimento, para os projetarmos nas competições. A monitorização destes dados ajuda-nos a aferir a qualidade dos protocolos de treino, assim como a fazer a sua adaptação, quando necessário”, explica Gabriel Mendes. Os testes repetem-se em intervalos de seis a oito semanas, o que permite perceber os reflexos dos exercícios de preparação: “Num regime submáximo, quando se consegue produzir os mesmos watts com menor produção de lactato do que no passado, no geral, significa que os efeitos do treino são positivos”, sublinha o diretor técnico nacional.

Só Iuri e Maria são testados durante a manhã, mas os restantes convocados vão passando pela pista, antes de todos se juntarem num almoço de ementa típica de equipa de ciclismo: massa cozida, bifes de frango, salada, sopa, fruta e café.
Apesar de os treinos técnicos estarem marcados apenas para o dia seguinte, os corredores vão fazendo algum trabalho dessa índole, sem interferir com o labor de quem está a realizar o teste a cada momento. Miguel Salgueiro está a adaptar-se a uma bicicleta de pista montada especificamente com as suas medidas. Iuri Leitão vai instruindo o neófito Rodrigo Caixas nas “manhas” do madison.

O trabalho é rigoroso, mas há sempre tempo para um aparte ou uma brincadeira que consolide o espírito de grupo. Todos participam. Do selecionador ao mecânico e ao massagista. Nesta jornada, o presidente da Federação, Delmino Pereira, visitou os trabalhos, deixando notas de incentivo aos corredores e aos profissionais federativos envolvidos.
Ao fim do dia, enquanto os ciclistas se preparam para o jantar, Gabriel Mendes desloca-se ao laboratório instalado no edifício adjacente à pista de BMX. Vai colocar as amostras recolhidas durante os testes de lactato no espectrofotómetro. O técnico Hélder Ferreira ajuda-o nesta tarefa final da jornada, registando os dados individuais de cada corredor.

Esta foi a primeira de uma série de reportagens que faremos em estágios das Seleções Nacionais de Ciclismo, dando a conhecer algum do trabalho de alto rendimento produzido pela equipa técnica nacional.
O estágio da Seleção Nacional de Pista termina no próximo domingo. Mas já nesta sexta-feira inicia-se uma concentração que juntará seis juniores praticantes de BTT, Artur Mendonça, Íris Chagas, Laura Simão, Mariana Líbano, Tomás Frazão e Vasco Cunha. Estes corredores serão sujeitos a avaliações físicas no laboratório, avaliações médicas e participarão num treino na pista de XCO de Tamengos.
Até ao final do mês, o Centro de Alto Rendimento receberá estágios das Seleções Nacionais Feminina (cadetes, juniores e sub-23), de BMX e de Estada (juniores).
Todos os participantes em todos os estágios são sujeitos a testes prévios para despistar a contaminação com SARS-CoV-2. Já durante os estágios têm avaliação médica, com o diretor clínico, Filipe Lima Quintas, além de avaliações com o psicólogo, Rolando Andrade, e com o nutricionista, Samuel Amorim.
2021-03-11 - 22:39:47

















